
Da equipe econômica do C6 Bank
Os Estados Unidos criaram em média 48 mil vagas de emprego por mês no último trimestre. É menos do que a média dos últimos anos.
O que parece ser um sinal de desaceleração do mercado de trabalho pode ser, na verdade, uma mudança na dinâmica do emprego americano.
O menor fluxo de imigrantes no país e o envelhecimento da população nativa causaram uma redução na força de trabalho.
Os efeitos já são vistos na menor geração de empregos e na dificuldade das empresas americanas de encontrar trabalhadores.
Como a transformação do mercado de trabalho americano pode afetar as decisões do Federal Reserve (banco central dos EUA)?
Menos demissões, menos contratações
O relatório de emprego (payroll) tem retratado um mercado trabalho menos dinâmico nos EUA. Apesar de o número de empregos criados em abril ter sido maior que o esperado, a média dos últimos 3 meses ficou em 48 mil. Nos 10 anos antes da pandemia, por exemplo, a média mensal de criação de emprego foi de cerca de 180 mil.
A menor abertura de vagas pode estar relacionada à redução na oferta de mão de obra nos Estados Unidos, em especial de imigrantes. Afinal, se há menos pessoas disponíveis para trabalhar, fica mais difícil preencher vagas de emprego.
Desde o ano passado, o governo americano tem adotado medidas para coibir a imigração irregular. O saldo entre a entrada e a saída de imigrantes não autorizados ficou negativo em 548 mil em 2025 – os dados são uma estimativa feita pela unidade do banco central americano, o Federal Reserve, em Dallas.
Como parte da população imigrante é composta por pessoas em idade de trabalhar, a redução na imigração tende a causar uma diminuição na oferta de trabalhadores.
Assim, a participação dos imigrantes na força de trabalho tem caído – veja o gráfico abaixo.

O problema é que os EUA não têm mão de obra nativa suficiente para compensar a saída dos imigrantes. Assim como a maior parte dos países desenvolvidos, os EUA estão se tornando uma nação mais envelhecida.
Isso significa que, ao longo do tempo, menos pessoas devem ingressar no mercado de trabalho.
O número de americanos com mais de 55 anos dobrou nos últimos 30 anos – foi de cerca de 50 milhões para perto dos 100 milhões. Hoje, quase um terço da população está nessa faixa etária. São pessoas que ou já se aposentaram ou vão se aposentar em alguns anos.
A combinação entre o envelhecimento dos americanos e a queda na imigração causou um fenômeno atípico: a diminuição da População Economicamente Ativa (PEA).
A PEA é o indicador que retrata a força de trabalho de um país – ela é composta pelo número de pessoas trabalhando ou dispostas a trabalhar.
De janeiro a abril deste ano, a força de trabalho americana perdeu 450 mil pessoas em relação ao mesmo período de 2025. Trata-se de uma redução atípica. É comum que a PEA caia quando a economia está em recessão, mas esse não é o caso agora.
Como a economia americana não está em recessão (e nem perto disso), a diminuição na força de trabalho começa a causar disfuncionalidades no mercado de trabalho.
As empresas tendem a demitir menos, porque têm medo de não encontrar novos trabalhadores, e contratam pouco, porque não conseguem preencher as vagas que já estão abertas.
Dessa maneira, o mercado de trabalho fica em situação de aparente contradição: a geração de postos de trabalho está caindo, mas o desemprego não sobe.
A taxa de desocupação americana está em 4,3%, um patamar historicamente baixo. Além disso, o número está próximo da taxa que o Fed enxerga para o desemprego no longo prazo (que é de 4,2%). Isso significa que, ao olhar para as atuais condições do mercado de trabalho, o banco central americano não deve encontrar sinais de preocupação.
Mesmo com uma geração de vagas mais baixa do que antes, o mandato da autoridade de busca pelo “máximo emprego” parece estar sendo cumprido.
Com o desemprego baixo, resta olhar para o outro mandato do Fed: a inflação. E nessa frente, as notícias não são boas.
A inflação americana continua perto de 3%, cerca de 1 ponto percentual acima da meta a ser buscada pelo banco central. O quadro pode ainda piorar nos próximos meses, por causa dos efeitos da guerra no Irã.
Um corte de juros nessa situação seria contraindicado, na nossa visão. Acreditamos que não há espaço para uma redução nas taxas americanas nos próximos meses. “Os investidores passaram a observar algumas características que colocam o Brasil numa posição mais favorável no contexto da guerra no Irã, e isso tem beneficiado o real”.

Claudia Moreno
Head de Brasil da equipe econômica do C6 Bank







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