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quarta-feira, 11 de outubro de 2017

AGRONEGÓCIO | Amapá perde 24 mil cabeças por ano em casos de roubo de gado

NO PASTO | A visão de animais nos campos amapaenses é objeto de muita apreensão por parte de produtores locais.
Cleber Barbosa
Para a Revista Diário

Exatamente quando o agronegócio desponta no Amapá, com grande esforço de produtores locais para se manter competitivos e equilibrar as coisas em relação à importação de carne de outros estados, o setor experimenta o dissabor de enfrentar uma onda de roubo de gado. Estimativas dão conta de que pelo menos 2 mil animais são furtados por mês, uma projeção para absurdos 24 mil cabeças por ano, o que representa um prejuízo anual de R$ 42 milhões.
Esses números revelam quão assustador é o problema, na verdade o maior deles atualmente, pois até mesmo a barreira da febre aftosa está sendo superada – com o reconhecimento do estado como livre com vacinação. Os pecuaristas são pessoas apaixonadas pelo que fazem, como também pacíficos, o que menos querem são conflitos, mas algo presida ser feito, dizem eles, que propõem uma ampla discussão a respeito, pois a violência dos ataques ocorrem de Vitória do Jari a Oiapoque, com predominância na região do baixo Araguari, que compreende as áreas dos municípios de Pracuúba e Amapá. Há casos em que a ação dos bandidos resultaram no roubo de lotes inteiros de 20, 30 animais.

ESPERANÇAS
Mas algumas iniciativas têm surtido efeito, segundo conta o consultor de agronegócio Juan Monteiro. São operações de repressão e também ações de inteligência do aparelho de segurança do estado. E um personagem é apontado como um verdadeiro ‘xerife’ no campo, o tenente PM Fábio, que realiza incursões noturnas com suas equipes, o que tem surtido bastante efeito. “Além da evasão de receita, trata-se de um problema de saúde pública, pois o gado roubado vai para o abate clandestino e a população deixa de consumir uma carne de qualidade, com inspeção”, diz.

Produtores recorrem até a sobrevoos de drones nas propriedades
Presidente da Acriap, Jesus Pontes, fala ao jornalista Cleber Barbosa no rádio
O s números sobre avanços no setor já colocam o Amapá como o segundo maior produtor nacional de búfalos, perdendo apenas para o estado do Pará. “Isso a partir da organização do setor e dos investimentos privados, especialmente em tecnologia genética”, diz Jesus Pontes, presidente da Acriap (Associação dos Criadores do Amapá), entidade que congrega os 50 maiores pecuaristas do Amapá, distribuídos numa área de 1,6 mil hectares para produção de proteína animal, com o destaque de que o fazem sem desmatar 90% dessa faixa de terras do território amapaense.

CRESCIMENTO
E o setor não pensa pequeno, ao contrário, o céu é o limite, afinal o Brasil é um dos líderes mundiais na produção de suínos e frangos, então mesmo com a turbulência gerada pela mal fadada operação “Carne Fraca”, a meta é reagir e despontar para o mercado mundial. O chamado baby búfalo, por exemplo, leva em média dois anos e meio para ir ao abate, o que vem sendo considerado um avanço significativo para o mercado, pois já responde por 50% do consumo.
Isso remete à uma capacidade instalada de buscar novos mercados, como por exemplo o da Guiana Francesa. “Na verdade a carne brasileira já está em Caiena, mas via Paris, de produtores de Goiás e do Mto Grosso”, explica Pontes, referindo-se aos grandes exportadores de carne brasileira para a Europa, dentre eles a França, que remete a carne “de volta” ao continente via Guiana Francesa.
Para o dirigente da Acriap a vizinha do lado de lá do rio Oiapoque é sim um mercado em potencial que está sendo trabalhado para se transformar em um importante mercado consumidor para os pecuaristas amapaenses.
Ele tem razão. Pois a carne brasileira tem grande apelo internacional, especialmente a carne de búfalo, a partir de melhoramentos genéticos que o Brasil detém ampla liderança mundial. “A indústria de couro clama pelo couro do búfalo a partir das novas tecnologia também de manejo’, diz Jesus Pontes.

QUADRILHA
A reportagem localizou também o presidente da Federação dos Pecuaristas do Amapá, Iraçu Colares, que também tem opinião formada a respeito da onda de roubo de gado, logo quando o setor desponta para se tornar ainda mais importante para a economia. “Na verdade sempre tivemos essa prática por aqui, mas nada como nessa escala industrial como se vê, o que para mim revela ser gente de fora do estado, coisa de crime organizado mesmo”, diz o pecuarista, que também é engenheiro agrônomo.
Iraçu Colares diz que agora os grupos de ladrões de gado não se limitam apenas em levar os animais. “Estão levando de tudo, fazendo a limpa mesmo em muitas propriedades, sem contar o uso da violência”, aponta o dirigente da Federação. Entre as alternativas para o enfrentamento do problema, Colares diz ser importante a ação coordenada e consorciada das forças de segurança do estado. “É preciso que os serviços de inteligência desses órgãos compartilhem informações para se chegar aos autores”, diz. Ele diz ainda que nas comunidades e cidades do interior as pessoas até já sabem identificar alguns suspeitos locais de colaborar com os grupos de fora, mas a dificuldade está em provar e levar adiante uma acusação.

NUANCES
Presidente da Federação de Agricultura, Iraçu Colares
Segundo a reportagem apurou, ainda, a ação dos ladrões de gado possui algumas características regionais, digamos assim. É que em fazendas da região do Rio Araguari, até balsas são utilizadas para carregar lotes inteiros de bois e búfalos. Já na região de Tartarugalzinho, os animais saem em caminhões boiadeiros; na região do Rio Pedreira, a escala é menor, com ocorrências de um, dois ou três animais por vez, que deixam os campos até em carros pequenos. “Há casos em que os ladrões fazem remarcações nos animais, ou então retiram as orelhas onde estão as etiquetas de propriedade do gado”, diz o pecuarista Jesus Pontes.
Mas além de ums resposta por parte do policiamento rural, os produtores estão recorrendo à tecnologia para melhorar a fiscalização das propriedades. Com a ajuda de pesquisadores da prória Universidade Federal do Amapá (Unifap), estão desenvolvendo uma técnica de marcar os gado com um chip e a partir daí ter um controle mais efetivo em caso de precisar ser localizado. “Também já estamos usando drones para fazer sobrevoos nas fazendas, apesar de que esses equipamentos ainda possuem limitações como autonomia de voo e distância percorrida, mas sem dúvida são ferramentas valiosas para o enfrentamento do problema”, diz Pontes, que também diz ser importante o uso de câmeras especiais com visão noturna, pois a maioria das ocorrências envolvendo roubo de gado acontecem à noite.

ESCALA
O problema do roubo de gado já foi levado a várias reuniões na Casa do Agro, entidade que congrega duas importantes entidades do setor, a própria Acriap e a Aprosoja (Associação dos Produtores de Soja e Mi-lho). Prova inconteste da mobilização de pecuaristas e agricultores em torno do Agronegócio, é também um foro apropriado para fomentar o debate e buscar com o apoio do poder público uma solução para o problema dos ataques a propriedades rurais no interior do Amapá. 

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