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domingo, 2 de julho de 2017

ESTRADA DE FERRO: Gente que morre de saudade da velha ferrovia amapaense.

Esta imagem do velho trem da EFA agora só em fotos ou pinturas. | Ilustração: Wagner Ribeiro
CLEBER BARBOSA
EDITOR DE TURISMO

Quando esteve ameaçada de virar sucata, ninguém acreditou. Virou objeto de conflitos políticos e depois entrou para o noticiário mundial dos negócios quando o [então] bilionário brasileiro Eike Batista assumiu o seu controle. Trata-se da Estrada de Ferro do Amapá (EFA), que outrora foi o mais charmoso meio de transporte para passageiros no Estado. Mas agora o fantasma do ostracismo e do abandono estão de volta.

Segundo dados da antiga controladora dos trens, a holding OGZ, o contrato de arrendamento de 20 anos firmado com o Estado previa um investimento de R$ 40 milhões na revitalização da linha férrea, mas pelas contas do grupo Batista esse valor ultrapassou os R$ 81 milhões. O fato é que os trens ficaram sim de cara nova.

Uma viagem entre o quilômetro zero da EFA até a estação no município de Serra do Navio, nos quilômetro 193, durava em média 5 a 6 horas. A viagem cortava os municípios de Santana, Macapá, Porto Grande, Pedra Branca e Serra do Navio. Durante o trajeto, observação nítida de todos os ecossistemas do Amapá, considerado o Estado mais preservado do país. Campos, cerrados, florestas, rios e igarapés iam surgindo pela janeja dos vagões encantando os observadores mais etentos e sensíveis para essas coisas.

Atualmente, os trens estão sob a responsabilidade do Governo do Amapá, que está em busca de interessados em arrendar a ferrovia. Depois da MMX, já passaram pelo controle da EFA a inglesa Anglo American e a indiana Zamin Ferrous.

Calendário – Os trens de passageiros faziam três viagens semanais entre Santana e Serra do Navio, às segundas, quartas e sextas-feiras. Outra característica importante da viagem era a interação com quem mora às margens dos trilhos, em localidades interioranas que possuem casebres isolados e simples. É só dar um aceno que as crianças e até adultos respondem com um sorriso e um “tchauzinho”.

Especialistas em turismo ferroviário já visitaram a Estrada de Ferro do Amapá e apontam essa via como tendo grande potencial para o incremento dessa atividade. Ferrovias muito mais antigas, como a Estrada de Ferro Oeste de Minas, com mais de 200 anos, ainda contribuem para a economia de cidades importantes como São João Del Rei e Tiradentes, só com o transporte de turistas. Então ainda está em tempo.

Muitas histórias de vida passadas nos vagões
Antes de se ter a Rodovia BR 210, que liga Macapá a Serra do Navio, o trem era o único meio de transporte regular para os trabalhadores da Icomi (Indústria e Comércio de Minérios S.A), construtora da Estrada de Ferro do Amapá e da vila da Serra. Popularmente chamadas de “baixadas”, as viagens eram uma prioridade para os operários que não possuíam residência funcional no lugar, que passavam os fins de semana em Macapá ou Santana. Gente como o sondador de geologia Pedro Ramos de Araújo, 73, que depois de receber sua casa, passou a usar os trens com menos frequência. “Não era um simples meio de transporte. Para nós era um ponto de encontro dos amigos, um acontecimento social mesmo”, diz ele. Para passar o tempo, era comum as esposas prepararem cestas com frutos, sanduíches, café e sucos. Enquanto isso todos a bordo davam um jeito de passar o tempo, seja jogando um dominó, baralho ou simplesmente colocando o papo em dia. “Mas sempre olhando pela janela e apreciando a paisagem”, completa Pedro.

Até um parto já ocorreu dentro de um vagão, conta dona de casa

Rosemeire Maia
São inúmeras as histórias contadas por quem, ao longo da história, manteve uma relação muito próxima com a Estrada de Ferro do Amapá. A dona de casa Francisca de Souza Silveira, 71, conta que até um parto ela ajudou a fazer dentro de um vagão da EFA. “Uma senhora começou a entrar em trabalho de parto e todos ajudaram com panos limpos, lençol e tudo mais. Só que quem aparou a criança fui eu”, diz ela, que tinha casa em Serra do Navio, mas viajava pelo menos uma vez por mês para Macapá nos trens. Depois que seu marido faleceu, ela decidiu morar com alguns filhos em Vitória (ES) e só retornou ao Amapá anos depois, quando a ferrovia passava por muitas dificuldades para continuar funcionando. “Eu até chorei quando encontrei tudo aquilo se acabando. Fico feliz que ela hoje esteja recebendo a devida atenção”, completa.

Jaciguara Cruz
Outra ex-moradora de Serra do Navio, Rosemeire Maia, 67, diz que viajava duas vezes por mês nos trens, na companhia dos quatro filhos. “Eles adoravam aquele ambiente, pois a gente preparava muito lanche para a viagem, que era muito divertida. Hoje em dia são os nossos netos que ou
vem falar dessas histórias e têm vontade de conhecer o trem”, diz.
Jaciguara Cruz, um conceituado fotógrafo, trabalhou como mecânico de máquinas pesadas na Icomi e conta que às sextas-feiras pegar o trem era uma grande felicidade. “A gente corria para tomar banho e se arrumar rápido para pegar uma janela no trem. Mas depois adorava ir até a porta do vagão, onde os degraus eram protegidos e a gente podia olhar o trecho que ficou para trás na viagem”, recorda.


CURIOSIDADES
– A ferrovia começou a ser implantada em 1954
– Sua conclusão ocorreu em janeiro de 1957
– Possui e extensão de 194 quilômetros
– Usa locomotivas diesel-elétrica
– É a única ferrovia de carga de bitola standard (1,435 m) no Brasil
– Em março de 2006 a MMX Mineração e Metálicos assume o controle da EFA
– Em 2005 a Anglo American assume os trens
R$6,50
Era o custo de uma passagem nos trens da EFA.

O TREM HOJE
Foto: G1 Amapá

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