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segunda-feira, 3 de abril de 2017

“Nós estivemos em Caiena e percebemos que muitos brasileiros são mal vistos lá”

MARCOS VINÍCIUS. O professor universitários fala sobre os aspectos humanos na fronteira do Amapá com a Guiana.
O curso de relações internacionais da Universidade Federal do Amapá tem um novo coordenador. Trata-se do professor-doutor Marcos Vinícius de Freitas Reis, que foi ao Conexão Brasília de ontem falar sobre um tema muito atual, cercado de muita expectativa pela sociedade amapaense e que para o meio acadêmico representa uma oportunidade de grandes estudos, que é a abertura da Ponte Binacional sobre o Rio Oiapoque. Um dos aspectos que as relações entre brasileiros e franceses passam a também ser consideradas é a religião, que de forte influência do lado de cá, vai aos poucos rompendo com barreiras históricas que os ideias libertários da Revolução Francesa teriam imposto do lado de lá. O pesquisador brasileiro também discorre sobre como o ensino religioso nas escolas do país precisa e já está sendo reformulado. 

Cleber Barbosa
Da Redação

Diário do Amapá – A quanto tempo o senhor está na Unifap?
Marcos Vinícius – Há quatro anos, no curso de Relações Internacionais, tendo ingressado por concurso público, na época em que estava com meu doutorado em andamento. Havia uma necessidade já da turma em expandir, daí eu vim para a região Norte em função também da carência de profissionais. A gente sabe que tanto a região Sul como a Sudeste já estão sobrecarregadas de pessoas e olhando um pouco os estudos, percebendo um pouco a área, a gente viu que o Amapá ainda é muito carente especialmente dos estudos de religião, que é a minha área. Com a criação do curso de relações internacionais aqui, sendo uma área de fronteira, com os investimentos que a universidade tem feito nesse curso, houve o interesse da minha parte.

Diário – Por falar nisso professor, Brasil e França têm historicamente relações diplomáticas consolidadas, mas agora com a abertura da ponte existe toda uma expectativa em relação ao estreitamento dessas trocas entre Amapá e Guiana Francesa. O senhor também pensa assim?
Marcos – Sim, inclusive em nosso curso nós temos alguns docentes que tem acompanhado essa questão, então a gente já realizou várias viagens com os alunos para tentar pensar como a questão dos catraieiros pode ser resolvida, como a Guiana vê os brasileiros nessa questão, então a gente tem discutido muito isso com os alunos. Há um grupo de professores que vê positivamente a questão da abertura da ponte em virtude do intercâmbio que possa se estabelecer entre os dois lados, mas por outro lado existe uma discussão também sobre a visão de um país em relação ao outro com a questão da circulação plena após a abertura da ponte. Nós estivemos em Caiena e percebemos que muitos brasileiros são mal vistos pelos guianenses, daí o receio de que essa abertura da ponte, essas negociações, possam estabelecer uma visão negativa em relação ao Brasil.

Diário – Com assim professor?
Marcos – De a gente tentar levar vantagens ou não atender as demandas da população local e nesse sentido aquilo que se pensa com a abertura da ponte, que seria a melhoria na qualidade de vida pode ficar no plano das ideias. Então o que a gente tem discutido com os alunos é sobre até que ponto ela beneficia a população local. Nas entrevistas que nós fizemos em 2013 com os catraieiros e que muitos professores aprofundaram, havia uma resistência dos próprios catraieiros a respeito da ponte por uma questão do mercado, afinal trabalham na condução de produtos e pessoas e essa ponte, portanto, tiraria deles essa clientela. Mas a gente sabe que nessa questão tem toda possibilidade da internacionalização do Amapá, sobretudo da área de fronteira. Então o curso de relações internacionais tem o interesse total pois temos como foco formar os profissionais internacionalistas para atuar nessas áreas, sejam elas em Ongs, na saúde, seja na área econômica. E pensar em termos de pesquisa como se dará essa integração entre os dois países, entende?.

Diário – Existe uma pró reitoria de relações interinstitucionais na Unifap que faz essa interlocução com universidades pelo mundo para a realização de intercâmbio, então o senhor acredita num incremento disso também com a Guiana Francesa?
Marcos – Sim, sim, o professor Paulo Gustavo é o grande responsável na Unifap pela internacionalização dessa instituição e consequentemente os alunos de relações internacionais acabam ganhando com isso. Hoje nós temos na universidade o mestrado em fronteiras, que busca discutir essas relações, além do plano de mobilidade, que tem permitido que nossos alunos possam ir a outros países e também em conexão com os países do Platô das Guianas, justamente para ter essa experiência de conhecer a realidade e assim contribuir com a sociedade amapaense com a experiência.

Diário – Puxando para a sua área, do ensino religioso, o que se sabe em relação a esse campo lá, existe uma religião predominante?
Marcos – Devido sua ligação com a França, e se pensarmos a relação da laicidade, que é totalmente diferente do Brasil, porque há uma discussão na França sobre isso, inclusive de um sentimento antirreligioso, o que faz com que as religiões não tenham uma participação tão forte no cenário público como tem aqui no Brasil. Então a gente percebe na Guiana um pluralismo religioso muito forte, como também tem no Brasil, claro que com expressões religiosas bem distintas.

Diário – Tem uma imigração muito forte também, não é?
Marcos – Sim, então lá nós temos claro o catolicismo, em função do processo de catequização; mas com o processo de imigração houve um crescimento muito forte das igrejas evangélicas, sobretudo pentecostais, além de algumas grandes como Assembleia de Deus e Universal. Mas você tem agora a presença gradativamente de religiões de matriz africana, presenças de espíritas, e aquilo que chamamos de um fenômeno religioso que são os cultos domésticos, pessoas que não têm uma vinculação institucional, mas que querem ter o culto ao sagrado. Mas o que me chama a atenção é essa exportação do meio evangélico para a Guiana, exatamente porque na região Norte, se a gente for pensar historicamente o os dados do IBGE, o maior número de evangélicos do Brasil está concentrado nessa faixa amazônica, muito mais próxima do Platô das Guianas.

Diário – Nessa questão que o senhor falou da laicidade da França, tem a ver com o processo histórico dos princípios libertários da Revolução Francesa?
Marcos – Exatamente, o berço vem daí. A laicidade veio como uma forma de contestação sobre a forma de governo, uma divisão de mundo dominado pelo catolicismo, então ela pregava exatamente essa separação formal entre igreja e estado, não só do ponto de vista da política, mas de todos os setores da sociedade. Mas não há um sentimento antirreligioso como prega o laicismo, mas é tentar entender o lugar da religião dentro da vida da pessoa e da sociedade. É no sentido de entender o exercício da liberdade religiosa, o exercício de você ter ou não religião. Se você tem um contexto plural, de várias expressões religiosas, e não mais o monopólio de uma instituição, você precisa reordenar, organizar, e dizer exatamente o funcionamento dessas religiões dentro da sociedade. Daí o nosso grupo de pesquisa estudar como se deve trabalhar essa questão do ensino religioso na escola.

Diário – Daí o evento que o senhor está coordenando sobre esse tema? Quando será?
Marcos – Exatamente, trata-se do I Congresso Estadual de Ensino Religioso do Estado do Amapá, que acontecerá no próximo dia 8 de abril, no Auditório da Engenharia da nossa Universidade Federal do Amapá. A entrada é franca e qualquer pessoa pode participar. Nós teremos a presença do professor Sérgio Junqueira, que ao meu ver é hoje um dos maiores nomes da área que pensa o ensino religioso, que constrói livros didáticos, que já foi consultor do MEC [Ministério da Educação] e que é um grande protagonista para entender a questão do ensino religioso, pois historicamente falando, o ensino sempre teve ligado a instituições religiosas, portanto um ensino confessional, um ensino catequético, um ensino até muitas vezes proselitista. Então à medida que a sociedade vai se pluralizando e essas religiões vão crescendo, a gente precisa tentar entender como incorporar essas outras religiões dentro do ensino e como trabalhar essa diversidade dentro da escola.

Perfil…
Entrevistado. Doutor em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos. Docente do Curso de Graduação em Relações Internacionais da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP). Docente em Gênero e Diversidade na Escola da UNIFAP. Possui graduação em História pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e mestrado em Ciência Politica pela Universidade Federal de São Carlos (Ufscar) . Membro do Núcleo de Estudos de Religião, Economia e Politica, Pesquisador do Observatório em Direitos Humanos da Amazônia (OBADH). Líder do Centro de Estudos Políticos, Religião e Sociedade (CEPRES).Tesoureiro da Associação Nacional de Historiadores Sessão Amapá (ANPUH AP). Filiado a Associação Brasileira de Historiadores da Religião (ABHR).

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