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sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

JORNALISMO | Exército forma correspondentes de guerra no Amapá

O exercício de progressão em área de conflito, no 34º BIS, simula a atuação do jornalista em uma zona de guerra real. 
Por Cleber Barbosa
Para a Revista Diário

Como  parte  das  atividades   desenvolvidas   pela   Operação Ágata  10,  que mobiliza tropas federais de várias  partes  do  país para o Amapá,   o   Comando  Militar    do    Norte,   que representa     o     Exército Brasileiro   na    Amazônia Oriental,  ofereceu  21 vagas  para  jornalistas   no   ECAM  2015   (Estágio   de    Correspondente   de  Assuntos  Militares)   mais conhecido como “correspondente de guerra”. O treinamento – inédito  no  Amapá –  reuniu 21 jornalistas do estado, entre acadêmicos do curso de comunicação social da Unifap  (Universidade  Federal  do  Amapá)  e   da   Faculdade Estácio Seama, como também quatro jornalistas  profissionais que atuam na imprensa local.
O   curso   foi   aberto   na  segunda-feira  (19),  no  quartel  do Comando da Fronteira Amapá e 34º Batalhão de Infantaria de Selva (BIS). O treinamento consiste em instruções  teóricas e práticas sobre o funcionamento e a missão do Exército,  bem como das demais Forças Armadas, além de  simular  situações de   ambiente   hostil,   semelhantes   ao   que  um  profissional correspondente militar poderá enfrentar em situação de  cobrir uma missão real.

ALIMENTAÇÃO
Já  no  primeiro  dia  de estágio, os alunos puderam radicalizar na  hora  da  primeira  refeição,  pois  o cardápio do almoço foi “Ração  Operacional  R-2”,   que    nada    mais  é   do   que   a alimentação de um  militar  deslocado  para  missões  em  que não há  meios  de  levar  a  cozinha  tradicional.  Os  alimentos passam por um processo físico-químico que os levam  a  quase secar,   podendo   ser  consumido  após  a  mistura  com  água quente – ou até natural. O kit que o Exército Brasileiro oferece a seus militares se assemelha ao que outros Exércitos pelo mundo oferecem.

Estagiários recebem instruções sobre como sobreviver na selva.
Mais que um grande  passo profissional, os alunos do ECAM 2015 tiraram lições para toda  a  vida.   A maioria nem mesmo prestou o  Serviço Militar Obrigatório,  portanto  foi  a primeira vez que entraram  em um quartel do Exército. E ainda puderam vestir  da  farda  camuflada que simboliza  o  soldado da  Amazônia.   No segundo dia do  treinamento,  no  dia  21  de outubro,   eles  receberam  instruções  sobre  como  sobreviver  na selva,  caso possam  sofrer  um  acidente aéreo,   fluvial  ou mesmo se perder numa mata.
Instrutores e monitores experientes, todos ostentando  o  brevê característico de quem frequentou o  Curso  de  Operações  na Selva,  no  temido  e  respeitado  CIGS (Centro de Instrução de Guerra na Selva),   em  Manaus,  se  revezavam  em  dar  dicas importantes para não sucumbir em um  ambiente  hostil  como uma   floresta   tropical.   Na  verdade,  pelo  que  disseram  os militares, dá para garantir condições mínimas de sobrevida até a chegada de resgate, se forem seguidas as orientações corretamente.
Em  um  ambiente  de  mata,  nos  fundos  do  quartel  do  34º  BIS,   os estagiários  passaram por   três   instruções   distintas: “Obtenção  de   água  e  fogo”,    “Obtenção  de  alimentos  de origem vegetal” e  “Obtenção de alimentos de origem animal”. A primeira importante dica repassada pelos instrutores foi para o instante da constatação de que  o  jornalista  estará  perdido na mata. E a base  é  uma  sigla,  como  tantas  outras  que  os militares   utilizam  para  diversas  situações.  “Lembrem-se  do ESAON”,  dizia  o   primeiro-sargento   Constantino,  experiente instrutor  do CIGS.  Essa  sigla  é  formada  pelas  iniciais  das palavras ESTACIONE, SENTE-SE, ALIMENTE-SE,  ORIENTE-SE e NAVEGUE, uma espécie de rito para  um  sobrevivente   seguir em ambiente de floresta.
A experiência, apesar de ser  considerada por muitos algo  diferente demais do dia-a-dia  de  um  jornalista,  acabou agradando gente como o acadêmico   Lázaro Gaya.  “O gosto da ração  é muito diferente de qualquer  coisa que eu  já  havia comido antes,  mas a gente ficou bem  alimentado o resto  do  dia,  pois  trata-se de uma alimentação     muito bem balanceada para o  nível de exigência de um militar,  que a gente sabe é praticamente um atleta de alto  rendimento”, disse o estagiário, que não hesitou em nenhuma das ‘amostras’ que lhes eram oferecidas a título de degustação.

RIGOR
Os recrutas do Exército que são incorporados em unidades da Amazônia passam por um treinamento semelhante de sobrevivência, que inclui passar três dias na floresta alimentado-se apenas daquilo que conseguirem retirar da natureza. “A floresta é um verdadeiro shopping center”, resume o subtenente Jânio, que ministrou o curso no 34º BIS.
Seguiram-se várias demonstrações  sobre  como  obter  água, fogo,   abrigo,  alimentos  da  vegetação e  proteínas  animais, como aves – que na simulação foram substituídas por frangos. Amostras de raiz, de plantas para chá  e  vinhos  de  palmeiras como  a   do   açaí   e   da   bacaba   foram   distribuídas aos estagiários.  Mas   um   dos   momentos   emblemáticos   foi  o consumo  da  larva do coco, que pode ser comida ainda viva – mais recomendado – o que serviu como teste de fogo  para  os jovens   estagiários.   "Tem  gosto  de  coco  apenas”, dizia a jornalista amapaense Karla Samara, que também é soldado do Corpo de Bombeiros Militar do Amapá. 
Ao final do treinamento,  já  tendo  passado  bem  da  hora  do almoço, os  alunos  do  ECAM  puderam  consumir  o  “sopão”  de que tanto se fala quando os recrutas assam pela  Operação Boina e a Sobrevivência  na  Selva.  Na  verdade  os  jornalistas consumiram uma boa e velha canja de galinha, sem  temperos ou legumes, mas que serviu para dar um “tapa” na  fome  que já apertava...
No treinamento real dos militares, tantos os recrutas como oficiais e sargentos que são transferidos de outras partes do país para organizações militares da Amazônia, o sopão é feito com as sobras dos animais usados para a demonstração dos alimentos de origem animal. 

ÁGATA
Foram selecionados seis estagiários do ECAM para a cobertura de uma missão real. Eles embarcaram em um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) em direção a Oiapoque, palco da Operação Ágata 10, na faixa de fronteira dos Estados  do Pará e Amapá. Este ano, 1.400 militares da Marinha,  do  Exército   e  da   Aeronáutica,     além     de    100  profissionais    dos     Órgãos   de Segurança  Pública  e  Agências  do  Estado  Brasileiro, como a Fundação Nacional do Índio (FUNAI),  Sistema  de  Proteção da Amazônia (SIPAM),  Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade     (ICMBio)    e    Instituto   Brasileiro   do   Meio Ambiente   e   dos    Recursos  Naturais  Renováveis    (IBAMA), Ministério do Trabalho, entre outras. Ao todo,  cerca de dois mil quilômetros de fronteiras,  entre  os municípios de Oiapoque  (AP) e Oriximiná (PA),  foram cobertos pela   Operação,    com  ações    militares preventivas e repressivas na fronteira marítima com a Guiana Francesa,  nas  águas  interiores  e  na  faixa  de  fronteira, que situa-se a 150  quilômetros  a  partir  da  divisa.  O  objetivo  era contribuir   para   a  redução  das  ações  do crime  organizado, práticas ilícitas e intensificar a presença do Estado nas áreas. Foram patrulhamentos e controle de vias terrestre,  fluvial e aérea;  levantamento,  autuação,  interdição  e destruição de pistas de    pouso    clandestinas;   fiscalização   de  produtos controlados e apreensão de materiais irregulares.

Em situação de guerra, tratados e convenções garantem proteção a jornalistas, que devem adotar postura de neutralidade

No   terceiro dia de instruções do ECAM (Estágio de Correspondente de Assuntos Militares), os   estagiários-jornalistas tiveram uma importante instrução com o procurador da República  André  Estima, do   Ministério   Público  Federal no Amapá. Ele discorreu sob o tema  “Direito  Internacional dos Conflitos Armados". Uma    das   muitas informações   repassadas    por    ele    diz  respeito  a   garantias  e prerrogativas de um  profissional jornalista  que  atue  como correspondente de   guerra,   pois existem tratados e convenções   internacionais   que   garantem proteção a esse profissional.
O membro da Procuradoria da República disse que  a  ressalva que é feita  diz  respeito  à  postura  de  imparcialidade  de  um jornalista  correspondente.  “O  repórter  que cobre um conflito armado jamais poderá tomar partido de A ou de B  na  guerra, deve  se limitar   a   apenas   registrar   os   acontecimentos e relata-los à  sociedade  por  meio de suas reportagens, pois se ele se mostrar parcial em relação a um ou outro país  ou  tropa adversária, poderá virar um alvo em potencial, ou seja, poderá ser morto”, alertou o especialista.

ILEGALIDADE
Ele explicou que até o final do século XX os  conflitos  armados eram “legítimos”, ou seja, um país poderia declarar guerra a outro por algum desentendimento ou  disputa  territorial.  “Mas  hoje isso é ilegal, cabe à política de relações  internacionais  dessas nações buscar o  entendimento,  caso  contrário  haverá  ainda uma  mediação  da  ONU  (Organização  das  Nações  Unidas), seja   por  meio   do  seu   Conselho  de  Segurança,  seja  pela Assembleia Geral”, diz o procurador.
André Estima também destacou a importância e o valor estratégico do Amapá estar na fronteira com a Guiana Francesa, que além de representar um país afiliado da União Européia, é também integrante de um bloco militar denominado OTAN, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, por vezes chamada Aliança Atlântica, aliança militar intergovernamental baseada no Tratado do Atlântico Norte, que foi assinado em 4 de abril de 1949. 
André  Estima,   em uma  verdadeira  aula  de  história,  contou como  os  primeiros  tratados  foram  celebrados  para frear os conflitos  armados,   especialmente  após  a  I Guerra  Mundial, uma  das   mais   sangrentas   da  humanidade.  “O  pacto  de Versalles,    em    Paris,    em   1919,    foi    considerado  um  grande avanço para o mundo, mas pouco depois, devido a um sentimento   de   vingança,   a   Alemanha   invadiu  a  Polônia, dando-se   início   à   II Guerra  Mundial,   que   foi  ainda  mais sangrenta   que   a   primeira”,  conta  ele,  acrescentando  que “guerra total não retrocede apenas  a  direitos  humanos,  mas renuncia a milênios de negociações entre as nações”.
A  cada  cenário  de  destruição  de  cidades,  países  e nações, o mundo experimenta cada vez mais o dissabor da  ambição e da falta de entendimento.  André Estima sublinhou em sua palestra alguns gênios da história da humanidade que defenderam a paz e condenaram a tecnologia a serviço da destruição. Como Albert Einstein,  que  disse:  “Não sei  com   que   armas    a terceira   guerra   mundial  será  feita,  mas  tenho   certeza  de  que  a  quarta  guerra  mundial  será  com paus e pedras”.

DEPRESSÃO
Outro grande nome da história, o brasileiro Alberto Santos Dumond, também foi citado por Estima. Quando o mundo se viu diante da primeira Guerra Mundial, Santos Dumont considerou que era sua responsabilidade pessoal, a destruição causada por zepelins e aviões. Seu sonho utilizado como arma militar, levou-o à depressão. Em 1928 quando retornou ao Brasil, ficou muito abalado, na sua chegada por navio, quando o hidroavião ”Santos Dumont”, caiu matando todos os ocupantes. Em 1932, ocorreu a Revolta Constitucionalista, em São Paulo, contra Getúlio Vargas. Aviões da União e de Minas Gerais bombardearam São Paulo. Santos Dumont em profunda crise, enforcou-se no banheiro, com uma gravata. Estava no Guarujá- SP. Seu corpo foi transportado para o Rio de Janeiro e sepultado, com homenagens de toda a Nação Brasileira.
Foto histórica da 1ª turma de correspondentes de guerra formados no Amapá.

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