Página do jornalista amapaense Cleber Barbosa, voltada a difundir notícias, pensamentos, reflexões e atualidades sobre turismo, comportamento, economia, cultura, política e empreendedorismo.


terça-feira, 1 de novembro de 2011

Serra do Navio, nem sombra do passado

Hospital, cinema, muito verde e qualidade de habitação: a Serra antiga

As esposas de funcionários da antiga mineradora Icomi quando chegavam a Macapá para fazer compras e gastar o bom salário que seus maridos recebiam nas minas de Serra do Navio, logo eram reconhecidas pelas boas roupas, boa educação e, claro, generosidades dos gastos. Eram pessoas que viviam em uma pequena vila incrustada no meio da mata, distante de tudo, mas com excelente qualidade de vida. Para compensar o isolamento da Serra do Navio, região centro-oeste do Amapá, os projetistas contratados pelo poderoso Grupo Caemi ergueram um modelo de urbanização, de saneamento, controle sanitário, saúde, educação e excelentes opções de lazer, como piscinas, quadras de vôlei, de tênis, boliche e sauna.
Isso tudo garantiu que gente como meu próprio pai, se orgulhasse em ter apenas uma assinatura na Carteira de Trabalho, gente com 25, 30 anos em uma única empresa. Amigo, férias coletivas era sinônimo de viagem, São Paulo, Brasília, Minas Gerais, foram vários os destinos turísticos que uma família de um operário e uma professora tinham direito. Tudo muito organizado. Verdade. Trem, carro na estação, coisa ao melhor estilo “transfer” das boas agências de viagem de hoje em dia. Detalhe, tudo parcelado, consignado em folha de pagamento.
 

A casa onde moram os meus pais atualmente, na Serra do Navio

Meu pai organizava a grana das férias dividindo o que tinha no bolso pelos dias até o próximo “vale”, que era pago nas quinzenas do mês. Assim ele estabelecia nossa “diária” para gastos nas viagens, de modo que não ficássemos um dia sem tutu. E dava tudo certo, sobrando até uns trocados para sua cervejinha, ninguém é de ferro.
Bem mas isso tudo para dizer que depois de algum tempo sem ir à Serra do Navio, estive nesse feriadão por lá e constatei que o lugar está muito mudado, infelizmente para pior. As gigantescas piscinas do complexo de lazer chamado de CCH quem dar o ar da graça são os mosquitos transmissores da dengue. Dá vontade de chorar de ver aquilo.

A Lagoa Azul: uma mina abandonada virou "point" turístico

As calçadas onde antes se podia fazer boas caminhadas ou andar de bicicleta simplesmente sumiram encobertas pelo mato. As ruas também possuem apenas algumas ilhas de pavimento. As casas, bem esse é um capítulo a parte, pois foram completamente adulteradas, nem de longe lembrando o modelo original, projetada para ter temperaturas internas de 2 a 3 graus mais amenos que o ambiente externo. Por falar em temperatura, felizmente uma coisa não mudou por lá, o clima.
Há notícias de que o recente tombamento pelo Instituto do Patrimônio Histórico Nacional poderá levar a administração da cidade a recuperar a vila. Assim, serranos como eu esperam, pois hoje aquilo não é nem sobra do passado de felicidade, fraternidade e irmandade.

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